Nelore: Como lidar com a pecuária na seca? Entenda!

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A criação de gado Nelore é uma atividade essencial para a economia brasileira, especialmente em regiões de clima tropical. No entanto, a seca representa um desafio significativo para os produtores rurais. 

Neste artigo, exploraremos estratégias eficazes para lidar com a pecuária de Nelore durante os períodos da falta de água (escassez hídrica).

Gado de corte: Descubra como lidar com a pecuária nelore durante a seca
Gado de corte: Descubra como lidar com a pecuária nelore durante a seca. | Foto: O Pecuário.

O que é nelore?

O gado Nelore é uma raça bovina originária da Índia, introduzida no Brasil no século XIX. Ele se tornou uma das raças mais populares no país devido à sua adaptabilidade ao clima tropical, resistência e ótima produtividade. 

Aqui estão algumas características importantes do Nelore:

  1. Musculatura e estrutura óssea: Os bois Nelore possuem musculatura bem distribuída e compacta, além de uma estrutura óssea forte e leve.
  2. Cupim: O cupim, presente nos bois Nelore, desempenha um papel importante na reserva de energia, tornando-os resistentes.
  3. Pele e temperatura: A pele do Nelore é maleável e não possui uma camada espessa de gordura, o que ajuda a regular a temperatura em climas quentes.
  4. Controle de ectoparasitas: Essa raça é facilmente controlada em relação a ectoparasitas e infestações, reduzindo os custos com tratamentos.
  5. Valor econômico: Investimentos em genética têm gerado animais de alta qualidade e alto valor de mercado.

O Nelore compõe cerca de 80% do gado bovino no Brasil e é uma peça fundamental na produção de carne. Sua carcaça é valorizada pela indústria devido ao excelente rendimento nos processos industriais.

A importância do planejamento no período chuvoso

Durante o período seco, a ausência de chuvas impede o crescimento do capim, o que representa um grande desafio para muitas fazendas que não se prepararam adequadamente. A falta de planejamento no período chuvoso pode resultar em grandes dificuldades durante a seca, pois sem capim suficiente, a sobrevivência dos rebanhos fica comprometida. É justamente sobre isso que vamos falar: como se planejar durante a estação chuvosa para enfrentar a seca de forma tranquila, sem prejudicar a produtividade.

A dinâmica da produção de capim para o Nelore

Durante os meses chuvosos, de setembro a abril, em algumas regiões do Brasil, é comum que as fazendas mantenham alta lotação, aproveitando a abundância de água para sustentar o crescimento do capim. No entanto, o grande desafio surge quando as chuvas cessam. Como manter a alta lotação durante os meses secos? A intensificação é uma das estratégias que podem ajudar a superar esse desafio.

A intensificação envolve aumentar a capacidade de produção de comida durante o período chuvoso, gerando um excedente que pode ser armazenado para uso durante a seca. Por exemplo, se a fazenda consegue sustentar 1,5 unidades animais (UA) por hectare durante a seca, ela pode intensificar a produção na chuva para alcançar 3, 4, 5, ou até 10 UA por hectare, garantindo que haja capim suficiente para atravessar o período de estiagem sem problemas.

Diferimento de pastagem e produção de silagem

Existem várias maneiras de armazenar o capim produzido em excesso durante a chuva. A mais comum é o diferimento de pastagem. Isso envolve reservar áreas de pastagem antes do fim do período chuvoso, por volta de fevereiro, março ou abril, dependendo da região. Essas áreas são vedadas e o capim é deixado crescer o suficiente para ser utilizado durante a seca.

Outra estratégia é a produção de silagem, onde o capim é cortado e ensilado para ser usado durante a seca. Cada uma dessas estratégias têm diferentes necessidades de investimento e resultados, devendo ser escolhida com base nos objetivos e condições da fazenda.

Maximização do período chuvoso para reduzir a dependência da seca

Nem sempre é necessário se preocupar em produzir mais comida durante a chuva para guardar para a seca. Algumas estratégias permitem aproveitar ao máximo o período chuvoso, de forma que a seca se torne uma preocupação secundária. Essa abordagem é particularmente útil em sistemas de recria, onde a categoria animal pode ser movimentada com mais flexibilidade, seja por compra, venda ou entrada em confinamento.

Durante a estação chuvosa, o foco deve estar na otimização do crescimento das pastagens, aproveitando ao máximo a capacidade produtiva do solo e o vigor das plantas. Isso pode ser alcançado através de práticas como a adubação adequada, o manejo rotacionado dos pastos e a escolha de variedades de capim com alta produtividade e resistência. Além disso, é fundamental planejar a produção de silagem durante esse período, produzindo um excedente de forragem que possa ser conservado e armazenado para uso na estação seca. A colheita de forragem em pico de qualidade e sua ensilagem eficiente garantem que o rebanho tenha acesso a nutrientes suficientes, mesmo quando o pasto fresco está indisponível. Dessa forma, ao maximizar o uso do período chuvoso, é possível criar um amortecedor natural contra as flutuações sazonais, reduzindo significativamente a pressão sobre os recursos da fazenda durante os períodos críticos de seca.

Um exemplo dessa estratégia é o que ensino no treinamento de recria dentro do Portal Acelerador de Arrobas, onde utilizamos intensivamente o período chuvoso para que não haja necessidade de depender tanto do período seco. Isso envolve aumentar o ganho médio diário (GMD) dos animais para ajustar a lotação de forma eficiente.

Planejamento e cálculos de lotação para o Nelore

O planejamento e os cálculos de lotação são fundamentais para garantir a eficiência produtiva e a sustentabilidade da criação de gado Nelore, especialmente em sistemas que enfrentam períodos de seca. Para começar, é essencial conhecer a capacidade de suporte das pastagens em sua fazenda, ou seja, quantos animais a área pode sustentar de forma saudável ao longo do ano. Esse cálculo deve considerar a produtividade média das pastagens durante o período chuvoso e a redução natural da oferta de forragem durante a seca.

Para o Nelore, um gado de grande porte que exige uma quantidade significativa de forragem, o planejamento de lotação deve ser particularmente cuidadoso. A taxa de lotação deve ser ajustada para garantir que, mesmo durante a seca, os animais tenham acesso a uma alimentação adequada sem comprometer a qualidade do pasto ou a saúde dos bovinos. A superlotação pode levar à degradação das pastagens e ao estresse alimentar, resultando em perda de peso e problemas reprodutivos.

Ao realizar os cálculos, considere a produção de forragem necessária para manter o gado ao longo do ano, levando em conta a produção de pasto durante a estação chuvosa e a quantidade de silagem ou feno necessário para complementar a alimentação na seca. Estabelecer uma margem de segurança na taxa de lotação pode evitar surpresas desagradáveis e garantir que os recursos alimentares sejam suficientes, mesmo em anos de seca mais severa. 

Para exemplificar:

Imagine que temos um lote de 100 animais iniciando o período chuvoso em outubro. Definimos uma meta de ganho médio diário de 1 kg por animal, com peso inicial de 220 kg e uma área de 10 hectares. A lotação é calculada em unidades animal por hectare (Ua/ha), onde 1 UA equivale a 450 kg de peso vivo.

Com 100 cabeças de 220 kg, temos 22.000 kg de peso total, o que equivale a 48 UA. Dividindo esse valor pela área, obtemos uma lotação de 4,9 Ua/ha. À medida que os animais ganham peso, a lotação aumenta, e em maio, ao final da estação chuvosa, os animais podem atingir entre 400 e 430 kg. Isso resulta em uma lotação mais alta, exigindo ajustes para manter a produção durante a seca.

Confira os principais desafios dos produtores de nelore durante a seca
Confira os principais desafios dos produtores de nelore durante a seca. | Foto: O Pecuário.

Ajustando a lotação para enfrentar a seca

Ao vender ou transferir os animais que atingiram o peso ideal para terminação, a taxa de lotação da fazenda pode ser drasticamente reduzida antes da seca. Por exemplo, uma fazenda pode começar o período chuvoso com 100 animais e, ao final desse período, após ganhos significativos de peso, vender ou transferir esses animais, zerando a lotação ou reduzindo-a significativamente. Isso permite que o pasto se recupere e esteja em melhores condições para suportar a lotação durante a seca.

Além disso, ao repor o gado após a venda, comprando animais mais leves, a lotação durante a seca é mantida em um nível mais sustentável. Mesmo com 100 cabeças, a lotação medida em Unidade Animal (UA) por hectare é menor, devido ao peso reduzido dos novos animais, o que facilita o manejo durante a seca.

Considerações sobre Irrigação

A irrigação é outra opção para enfrentar a seca, mas é uma ferramenta que exige um manejo altamente especializado. Apenas molhar o solo não é suficiente; é necessário um conhecimento avançado em manejo de pastagem, adubação, e colheita de capim para maximizar os benefícios da irrigação. Além disso, o custo de implementação da irrigação é significativo, variando entre 25 e 30 mil reais por hectare.

Estratégias para superar a seca

Após discutir as diversas opções de manejo durante o período seco, é fundamental considerar o nível de intensificação da sua fazenda ao escolher a melhor estratégia. Cada fazenda possui características distintas, e a escolha entre diferimento de pastagem, silagem ou irrigação deve ser feita com base no seu objetivo final e nas condições específicas da propriedade.

Níveis de intensificação: um guia para escolha

  1. Diferimento de pastagem: Ideal para fazendas que estão iniciando o processo de intensificação. Esta é uma estratégia mais simples e acessível, porém com menor potencial de resultados em comparação com outras técnicas mais avançadas.
  2. Silagem: Indicada para fazendas de médio a alto nível de intensificação. A silagem permite estocar alimento para o período seco, aumentando a capacidade de suporte da fazenda durante a seca. É uma estratégia intermediária que não requer os elevados investimentos necessários para a irrigação.
  3. Irrigação: Destinada a fazendas com alto nível de intensificação, onde há capacidade de manejo avançado, adubação eficiente e recursos financeiros e hídricos suficientes. A irrigação oferece excelentes resultados, mas demanda uma gestão rigorosa e altos investimentos iniciais.

Definindo o objetivo: o primeiro passo

Antes de decidir qual estratégia adotar, o passo mais importante é definir claramente o seu objetivo. Pergunte-se: Onde eu quero chegar? A partir desta definição, será possível traçar o caminho mais adequado para atingir os resultados desejados. Se o objetivo for manter uma taxa de lotação moderada durante a seca, o diferimento pode ser suficiente. Entretanto, se o foco for maximizar a produção de peso dos animais durante todo o ano, a silagem ou a irrigação podem ser mais adequadas.

Diferimento de pastagem: a opção simples

O diferimento de pastagem, que consiste em reservar áreas de pasto durante a estação chuvosa para uso na seca, é uma estratégia eficiente para propriedades com menor nível de intensificação. Segundo experiências de consultoria, é possível manter uma taxa de lotação de até 1,5 UA por hectare durante a seca utilizando apenas o diferimento. Acima deste valor, torna-se necessário adotar estratégias complementares como a silagem ou a irrigação.

Silagem vs. Irrigação: comparando resultados

Irrigação: Esta estratégia visa manter uma produção constante ao longo do ano, minimizando as variações causadas pela sazonalidade. É ideal para fazendas que podem arcar com os custos elevados de implantação e operação, além de dispor de uma fonte abundante de água.

Silagem: Diferente da irrigação, a silagem consiste em produzir mais capim durante a estação chuvosa, excedendo as necessidades do rebanho. Esse excedente é colhido, ensilado e armazenado para ser utilizado durante a seca. Esta é uma estratégia que pode ser adaptada conforme o nível de intensificação da fazenda e a qualidade nutricional desejada.

Considerações financeiras e estruturais

A escolha entre silagem e irrigação também deve considerar o aspecto financeiro e a infraestrutura da fazenda. A irrigação exige um investimento inicial de aproximadamente R$25.000 a R$30.000 por hectare, além da necessidade de uma grande quantidade de água. Por outro lado, a silagem é uma alternativa mais acessível e menos dependente de recursos hídricos, sendo uma escolha viável para muitas propriedades que ainda não estão preparadas para a irrigação.

Escolhendo o tipo de silagem: capim, capiaçu ou milho?

A escolha do tipo de silagem deve ser baseada na categoria animal que será alimentada e no objetivo da alimentação:

  1. Capiaçu: Possui a menor qualidade nutricional entre as opções, sendo indicada para vacas que não necessitam de ganho de peso, apenas manutenção corporal. É a opção mais econômica em termos de volume produzido.
  2. Capim: Apresenta uma qualidade intermediária, adequada para recria e novilhas que precisam ganhar peso, mas sem necessidade de alta performance.
  3. Milho: Silagem de maior qualidade nutricional, com mais energia e menos fibra. É indicada para animais que estão em fase de terminação, onde o objetivo é o máximo ganho de peso em curto período, justificando o investimento mais elevado.

Planejamento e execução: o caminho para o sucesso

Independentemente da estratégia escolhida, o planejamento e a execução são cruciais. Desde a escolha da área para plantio da silagem até a preparação e armazenamento adequado, cada etapa deve ser realizada com precisão para garantir que o alimento esteja em condições ideais para o consumo na seca.

É essencial lembrar que o que se faz durante a estação chuvosa impacta diretamente o desempenho durante a seca, e o que se faz na seca influenciará a produtividade na próxima estação chuvosa. Portanto, o manejo do pasto deve ser feito com visão de longo prazo, evitando sobrecarregar o capim e comprometendo a produção futura.

A importância do planejamento e da gestão continuada para o Nelore

Impactos a longo prazo das decisões de manejo

É crucial compreender que as decisões tomadas durante a estação chuvosa têm um efeito cascata sobre a produção futura da fazenda. Se o manejo do pasto não for realizado adequadamente, o resultado pode ser a degradação do solo, o aparecimento de plantas daninhas e a formação de tolceiras que se tornam cada vez mais espaçadas. Isso leva a uma exposição maior do solo e a um ciclo vicioso de degradação que é difícil de reverter. Portanto, é imperativo fazer um planejamento cuidadoso e executar as práticas de manejo com precisão para evitar impactos negativos a longo prazo.

Enfrentando as secas com estratégia

As secas são uma realidade inevitável na produção agropecuária. Todos os anos, o risco de períodos secos está presente, e a preparação para estes períodos deve ser uma prioridade constante. Não se pode assumir que um ano não terá seca; ao contrário, é prudente sempre estar preparado para enfrentar essas adversidades.

Se você está aumentando o tamanho do seu rebanho, é essencial revisar e ajustar suas estratégias de manejo. A expansão do rebanho implica um aumento na demanda de alimento e, portanto, na necessidade de uma estratégia de manejo eficiente que garanta a oferta adequada de nutrientes durante todo o ano.

A preparação para o futuro do Nelore

Para garantir que a fazenda não sofra com a falta de alimento durante a seca, é necessário investir em planejamento estratégico. Avalie as condições atuais da sua propriedade, o tipo de silagem que melhor se adapta às suas necessidades e o nível de investimento que você pode fazer em infraestrutura de irrigação, se for o caso.

Além disso, tenha sempre em mente que um bom planejamento não apenas ajuda a manter a saúde do rebanho e a eficiência da produção, mas também evita perdas financeiras significativas. A gestão eficiente do pasto e dos recursos disponíveis garantirá que a fazenda esteja bem preparada para enfrentar os desafios impostos pelas secas e manter a produtividade e a lucratividade.

Ao final, lembre-se: o sucesso na pecuária e na agricultura é alcançado por meio de um manejo cuidadoso e planejado. Cada decisão, desde o tipo de silagem a ser produzida até a escolha entre irrigação ou diferimento, deve ser feita com base em um objetivo claro e uma estratégia bem definida. A preparação e a gestão eficaz dos recursos são a chave para superar os desafios e garantir a sustentabilidade da sua operação a longo prazo.

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Lidar com a pecuária de Nelore durante a seca exige planejamento, conhecimento técnico e resiliência. Ao adotar as práticas mencionadas, os produtores podem enfrentar os desafios climáticos e manter a produtividade de suas fazendas.

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