Pecuarista a seca chegou. E agora? Como ter uma pecuária lucrativa?

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A chegada da seca representa um desafio significativo para os pecuaristas, mas também uma oportunidade para aprimorar a sustentabilidade e lucratividade da pecuária. Diante dessa adversidade climática, estratégias eficazes de manejo hídrico, alimentação e bem-estar animal são essenciais. 

Este cenário demanda não apenas resiliência, mas também inovação na gestão dos recursos disponíveis, visando não só a sobrevivência do rebanho, mas a continuidade de uma pecuária robusta e rentável.

imagem ilustrativa de pecuarista guiando o rebanho
Pecuarista: Saiba como ter uma pecuária lucrativa na seca. | Foto: O Pecuário.

Planejamento e Estratégias de Alimentação durante a Seca

Não é segredo que o Brasil, em sua maior parte, enfrenta um período de transição entre a estação chuvosa e a seca, especialmente em maio. Essa mudança climática exige um planejamento adequado por parte dos pecuaristas, que muitas vezes enfrentam dificuldades devido à falta de preparação durante a estação chuvosa. Como resultado, muitas fazendas passam por apertos durante a seca, pois não se prepararam corretamente para manter a produtividade nesse período desafiador.

Estratégias de Intensificação para a Seca

Existem várias estratégias que podem ser adotadas para garantir uma seca mais tranquila, ou até mesmo para manter o desempenho durante todo o ano. Essas estratégias variam em agressividade, custo e retorno, e cada uma deve ser escolhida de acordo com os objetivos da fazenda. Algumas são mais agressivas, permitindo maior ganho, mas com um custo mais elevado. Outras são mais moderadas, oferecendo um equilíbrio entre custo e retorno.

Antes de explorar as diferentes estratégias, é crucial entender a importância de produzir e armazenar alimento durante a estação chuvosa para garantir a sobrevivência dos animais na seca. Um gráfico de chuvas acumuladas ao longo dos meses, representativo da maioria das regiões do Brasil, ajuda a visualizar quando a produção de capim é possível e como essa produção deve ser gerenciada para atravessar a seca.

Gráfico de chuvas durante os meses. 
Gráfico de chuvas durante os meses. 

Produção de Capim e Gestão da Lotação

A produção de capim depende diretamente da disponibilidade de água, e, como esperado, a produção é mais elevada entre setembro e abril, quando há maior incidência de chuvas. No entanto, é comum que a lotação nas fazendas seja alta durante esse período, aproveitando a abundância de capim para sustentar grandes quantidades de animais. Mas, quando chega a seca, essa alta lotação se torna um problema.

Uma das estratégias mais básicas e eficazes para enfrentar esse desafio é aumentar a capacidade de produção de capim durante a estação chuvosa. Isso permite que o excedente produzido seja reservado para uso durante a seca. Se essa estratégia não for implementada, a fazenda fica limitada à capacidade que pode sustentar durante a seca, perdendo a oportunidade de intensificar a produção durante as chuvas.

Diferimento de Pastagem e Produção de Silagem

Duas estratégias principais podem ser utilizadas para armazenar alimento para a seca: o diferimento de pastagem e a produção de silagem. O diferimento de pastagem envolve reservar áreas de capim antes do final da estação chuvosa, permitindo que essas áreas cresçam o suficiente para serem utilizadas durante a seca. Já a produção de silagem consiste em cortar e ensilar o capim produzido, armazenando-o para uso posterior. Ambas as estratégias têm suas particularidades e devem ser escolhidas de acordo com as necessidades e objetivos específicos da fazenda.

Intensificação Durante o Período Chuvoso

Outra abordagem para enfrentar a seca sem a necessidade de grandes reservas de alimento é aproveitar ao máximo o período chuvoso. Essa estratégia é particularmente eficaz para a recria, uma categoria que pode ser movimentada facilmente, seja por compra, venda ou confinamento. Intensificando a recria durante a chuva, é possível produzir tudo o que é necessário, reduzindo a preocupação com a seca. 

Estratégias para Gerenciar a Lotação Durante a Transição Chuva-Seca

Quando pensamos em manter a produtividade durante a seca, é essencial ajustar a lotação conforme a disponibilidade de alimento. Uma das abordagens mais eficazes é intensificar os ganhos durante a estação chuvosa, permitindo que os animais atinjam o peso ideal antes da transição para a seca. Com isso, ao final do período de chuvas, os animais podem ser retirados do sistema, seja por venda ou pelo envio para terminação em confinamento, ou pastagem intensiva. Essa estratégia não só alivia a pressão sobre as pastagens, mas também permite que a área se recupere, garantindo a sobrevivência do capim durante a seca.

Reposição Estratégica para Manutenção da Produtividade

Após a venda dos animais de recria, a reposição deve ser feita com animais mais leves, geralmente em torno de 180 a 200 quilos, para manter a lotação baixa durante a seca. Essa reposição gradual, ao longo dos meses de seca, permite que a lotação se mantenha em níveis aceitáveis, evitando sobrecarga nas pastagens e garantindo que o ciclo de produção continue de maneira sustentável.

Maximizando o Uso do Capim Durante a Seca

O planejamento adequado durante a chuva, com a estratégia de venda e reposição mencionada, pode eliminar a necessidade de grandes reservas de capim para a seca. Em vez de diferimento de pastagem ou produção de silagem, a ênfase está em aproveitar ao máximo o período chuvoso, para a seca ser enfrentada com uma lotação ajustada e animais leves, minimizando a necessidade de capim adicional.

Vantagens da Intensificação em Ciclos

Essa abordagem de intensificação durante a chuva oferece várias vantagens, especialmente para fazendas de recria. Manter a recria em um único ciclo sazonal permite uma melhor gestão da lotação e evita a exposição excessiva ao mercado, mantendo a relação de troca saudável. Para fazendas de cria, no entanto, essa estratégia não é viável devido à natureza de longo prazo da produção, exigindo um planejamento que inclua a produção e armazenamento de capim para a seca.

Alternativas para Fazendas de Cria: Diferimento de Pastagem e Produção de Silagem

Fazendas de cria enfrentam desafios únicos, uma vez que as vacas não podem ser facilmente removidas do sistema durante a seca. Assim, é necessário um planejamento específico que inclui a produção de capim durante a chuva para ser utilizado na seca. As duas estratégias principais para isso são o diferimento de pastagem, sendo mais barata, mas oferece resultados limitados, e a produção de silagem, que envolve um custo mais elevado, mas proporciona uma reserva de alimento mais substancial.

A Irrigação como ferramenta de intensificação avançada

Outra opção a ser considerada, embora mais complexa, é a irrigação. No entanto, a irrigação deve ser vista como a “ponta da pirâmide” da intensificação, exigindo um manejo avançado de pastagem, incluindo adubação adequada e conhecimento tecnológico para maximizar seus benefícios. Implementar a irrigação sem um manejo adequado pode resultar em custos elevados sem os retornos esperados.

Estratégias de Irrigação e Silagem

Uma vez definido que a irrigação pode ser uma excelente estratégia, é importante considerar o custo e a viabilidade dessa implementação. Atualmente, a implantação de um sistema de irrigação em sua fazenda pode variar de R$25.000 a R$30.000 por hectare. Portanto, antes de optar por essa estratégia, é fundamental avaliar se a sua fazenda está preparada para suportar esse nível de investimento. Se a infraestrutura e os recursos financeiros da fazenda ainda não estão prontos para comportar a irrigação, talvez seja melhor considerar alternativas menos intensivas, como o diferimento de pastagem ou a silagem.

A Escolha entre Diferimento, Silagem e Irrigação

A decisão entre usar o diferimento, a silagem ou a irrigação depende do objetivo e do nível de intensificação desejado para a fazenda. Para uma fazenda que está apenas começando a intensificar suas práticas, o diferimento pode ser a melhor escolha. Já para fazendas de médio a alto nível de intensificação, a silagem ou o sequestro são alternativas viáveis. Por outro lado, a irrigação é mais adequada para fazendas que buscam altos níveis de intensificação.

No entanto, o primeiro passo antes de escolher uma estratégia específica é definir claramente os objetivos da fazenda. Somente após a definição do objetivo é que se pode determinar a melhor estratégia a ser adotada. Por exemplo, se o objetivo é manter uma taxa de lotação de 1,5 UA por hectare durante a seca, o diferimento pode ser suficiente. No entanto, se a intenção é aumentar a lotação, será necessário considerar a silagem ou a irrigação para lidar com o excedente.

Silagem versus Irrigação: Entendendo as Diferenças

A irrigação tem a vantagem de manter a produção constante durante o ano, permitindo que a fazenda mantenha o mesmo nível de produção, mesmo nos períodos secos. Por outro lado, a silagem requer que se produza mais durante os períodos de chuva, para que o excedente possa ser armazenado e utilizado na seca. Isso implica em uma estratégia que demanda planejamento e execução cuidadosa para garantir que o capim seja colhido e armazenado de maneira eficaz.

Considerações Financeiras e Logísticas

A escolha entre silagem e irrigação envolve uma série de considerações financeiras e logísticas. A irrigação, por exemplo, requer um investimento significativo não apenas em dinheiro, mas também em infraestrutura, como sistemas de irrigação e fontes de água abundantes. Dependendo da região, pode ser necessário até 60.000 litros de água por hectare por dia, o que pode ser inviável para muitas fazendas.

Em contrapartida, a silagem pode ser uma alternativa mais acessível para a maioria das fazendas, já que não exige os mesmos níveis de investimento em infraestrutura. No entanto, é crucial que a silagem seja feita corretamente, com o uso de maquinário adequado, inoculantes e lonas de qualidade para garantir que o material armazenado mantenha seu valor nutricional.

Tipos de Silagem e Seus Usos

Existem diferentes tipos de silagem que podem ser utilizadas dependendo do objetivo da fazenda. A silagem de capiaçu, por exemplo, é uma opção de menor custo e menor qualidade nutricional, sendo adequada para vacas que não necessitam de ganho significativo de peso. Já a silagem de milho, que possui maior qualidade nutricional, é indicada para categorias que exigem alto ganho de peso, como boiadas destinadas ao abate.

A escolha do tipo de silagem deve ser feita com base no objetivo específico de cada categoria do rebanho. Por exemplo, para uma vaca que precisa apenas manter o peso, a silagem de capiaçu pode ser suficiente. Já para animais em fase de recria, que precisam ganhar peso, a silagem de capim pode ser mais adequada. Para boiadas que serão terminadas para o abate, a silagem de milho, apesar de mais cara, pode ser a melhor opção devido ao seu alto valor energético.

Planejamento e Execução Eficientes

Independentemente da estratégia escolhida, é essencial que todas as etapas do processo sejam planejadas e executadas com precisão. Isso inclui determinar a quantidade de hectares que serão plantados, quantos cortes serão feitos, e se há disponibilidade de maquinário necessário. Além disso, é crucial que a silagem seja feita de forma adequada, utilizando lona de qualidade e inoculantes, para garantir que o material esteja em boas condições quando for utilizado na seca.

Impacto das Condições Chuvosas na Sustentabilidade da Pastagem

A gestão das pastagens durante o período chuvoso é crucial para garantir a sustentabilidade da produção e evitar problemas graves durante a seca. O que acontece na estação chuvosa tem um impacto direto na disponibilidade e qualidade do capim para a seca seguinte. Se o capim não for manejado adequadamente durante as chuvas, isso resultará em uma escassez de forragem na seca, criando um ciclo vicioso que pode levar a uma degradação significativa da pastagem.

Se o capim for sobrecarregado durante as chuvas, não haverá material suficiente para ser armazenado para a seca, e isso agravará ainda mais a situação na estação seca. Consequentemente, isso pode levar a uma degradação acelerada das pastagens, com a aparição de plantas daninhas e solo exposto, tornando a recuperação da pastagem muito mais difícil e demorada.

Preparação para a Próxima Seca

É fundamental para o pecuarista lembrar que a seca é um fenômeno recorrente. Cada ano traz suas próprias condições climáticas, mas a tendência histórica mostra que a seca é uma constante. Portanto, é essencial preparar-se com antecedência para garantir que a fazenda possa lidar com as variações sazonais. Isso inclui considerar a capacidade da fazenda para armazenar capim e planejar a utilização de silagem ou irrigação, conforme o nível de intensificação desejado e os recursos disponíveis.

Por fim, lembre-se de que o que você faz durante a estação chuvosa influencia diretamente a qualidade das pastagens na próxima seca e, por conseguinte, o desempenho geral da fazenda. Um manejo adequado e uma estratégia bem elaborada ajudarão a garantir que a fazenda não apenas sobreviva às secas, mas também prospere, mantendo a saúde do rebanho e a eficiência econômica.

Em resumo, a diversificação de atividades e fontes de renda não apenas fortalece a resiliência econômica das operações do pecuarista, mas também contribui para a sustentabilidade a longo prazo e a adaptação às mudanças no mercado e no ambiente.

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