Na produção de gado de corte, o sucesso do manejo nutricional não depende apenas da escolha da ração ou suplemento ideal, mas de uma série de fatores interligados que garantem o máximo aproveitamento dos nutrientes oferecidos. Entender conceitos como a Lei do Mínimo, o equilíbrio entre proteína e energia, e a importância da frequência e quantidade corretas de fornecimento de ração e suplementos é fundamental para otimizar o ganho de peso dos animais. Uma nutrição inadequada, por exemplo, pode resultar em animais que não atingem o peso esperado, gerando prejuízos ao produtor. Neste contexto, a escolha da ração de gado de corte adequada deve estar alinhada a uma suplementação eficiente, ajustada às necessidades específicas do rebanho e à infraestrutura disponível na propriedade.
Sendo assim, confira os principais pontos para garantir uma suplementação para gado de corte de sucesso e maximizar os resultados na pecuária.
Entendendo os conceitos por trás da ração de gado de corte
“Qual é o melhor suplemento para ganho de peso?” — Esta é uma pergunta comum, mas a verdade é que não existe um “melhor” suplemento universal. Nesse sentido, vamos conferir os conceitos que definem se um suplemento é o ideal para você ou não, para que você possa tomar a melhor decisão com base em conhecimento, e não em uma receita genérica de internet.
Vamos fugir de soluções mágicas! É importante entender os fundamentos da suplementação para fazer escolhas acertadas.
Como melhorar a produção de arrobas
Para iniciar, quero compartilhar alguns conceitos importantes sobre a produção de arrobas, que é um dos principais objetivos da pecuária de resultados. A produção de arrobas depende de três fatores principais: quantidade de cabeças por hectare, ganho de peso, e o período em que os animais permanecem na taxa de lotação.
Quanto maior a quantidade de cabeças por hectare, o ganho de peso e o tempo de permanência na taxa de lotação, maior será a produção de arrobas. O contrário também é verdadeiro: qualquer diminuição em um desses fatores resulta em menor produção.
Por que eliminar o conceito de “cabeças por hectare”? — Já discutimos isso em um vídeo anterior, onde explico como alcançar 10 cabeças por hectare. Hoje, o foco será no segundo fator: o ganho de peso.
Ganho de peso: o segundo pilar da produção de arrobas
O ganho de peso é fundamental para determinar a quantidade de arrobas que você vai produzir. Se você já aprendeu a aumentar a densidade animal por hectare, o próximo passo é entender como otimizar o ganho de peso.
Vamos começar entendendo a importância de ter um alto Ganho Médio Diário (GMD) no seu sistema. O GMD representa a quantidade de peso que cada animal ganha por dia. Aqui, utilizamos uma tabela com um “GMD normal” para demonstrar uma simulação:
- Na seca, um GMD típico varia de 150 a 200 gramas por dia.
- Na época de chuva, pode chegar a 700 ou 800 gramas por dia.
Por exemplo, um animal que entra no mês de julho com 200 kg e segue um GMD de 150 gramas durante os meses de seca, chegará em outubro com aproximadamente 213 kg. Com a chegada da época de chuvas e a introdução de um suplemento adequado, o GMD pode aumentar para 700 gramas por dia.
Comparando diferentes estratégias de suplementação
Para exemplificar a importância do GMD, comparamos dois cenários:
Cenário normal:
- GMD médio de 517 gramas.
- Custo total de R$600,00 por cabeça ao ano.
- Produção de 6,05 arrobas, com custo de produção de R$99,00 por arroba.
Cenário recria
- GMD médio de 800 gramas.
- Custo total de R$840,00 por cabeça ao ano.
- Produção de 9,2 arrobas, com custo de produção de R$91,00 por arroba.
Embora o segundo cenário exija um investimento maior (R$840,00 contra R$600,00), o custo de produção por arroba é significativamente menor (R$91,00 contra R$99,00). Isso acontece porque o maior investimento resulta em um ganho de peso muito maior, otimizando o custo final da arroba.
Por que investir corretamente na ração de gado de corte é crucial?
Investir corretamente é fundamental para garantir que o dinheiro investido na pecuária retorne de forma lucrativa. Gastar mais não significa necessariamente um custo maior por arroba. Se o investimento é feito em itens que aumentam a produtividade, como uma suplementação adequada, o custo da produção diminui, mesmo com um gasto inicial maior.
Suplementação otimizada: como fazer?
Então, como suplementar de forma eficiente para maximizar o ganho de peso? A resposta está em ajustar não só a suplementação, mas também a pastagem, os cuidados gerais, e entender a Lei do Mínimo — um conceito que explica que o crescimento é limitado pelo fator que está em menor quantidade.
A lei do mínimo na nutrição animal
Para entender melhor como funciona a suplementação correta para o ganho de peso dos animais, vamos falar sobre o conceito do “barril do Charles”, que se refere à Lei do Mínimo aplicada à nutrição animal. Imagine que temos um barril, onde cada tábua representa um fator de produção, como proteína, energia, matéria seca, cálcio, fósforo, entre outros. O nível de água que se pode colocar nesse barril corresponde ao quanto de peso o animal consegue ganhar por dia.
Se uma dessas tábuas estiver em um nível mais baixo, ao tentar encher o barril, a água começará a vazar por essa tábua. Não adianta que todas as outras tábuas estejam altas se uma delas não estiver adequada. Isso é o que a Lei do Mínimo diz: de nada adianta fornecer muita proteína para o animal, por exemplo, se o equilíbrio com a energia não está correto. O mesmo vale para os minerais – fósforo, cálcio, sódio, entre outros – que precisam estar em níveis adequados.
O erro comum na ração de gado de corte
Muitos produtores cometem o erro de fornecer um suplemento proteinado, mesmo quando o pasto já possui uma alta concentração de proteína. Pastagens bem manejadas, adubadas e rotacionadas, por exemplo, frequentemente têm alta concentração de proteína. Nesse caso, o ganho de peso não aumenta significativamente ao adicionar mais proteína, já que o que falta não é proteína, mas energia ou minerais. Corrigir esse desequilíbrio é fundamental para melhorar os resultados.
A escadinha da suplementação com a ração de gado de corte
Quando pensamos na suplementação, existe uma progressão natural que deve ser seguida, chamada de “escadinha da suplementação”. Começamos com o sal mineral, passando para os proteinados, até chegarmos ao proteico energético. No contexto da recria, quando chegamos ao proteico energético, o próximo passo não é mais subir na escada, mas sim ajustar o consumo desse suplemento.
O que são proteinado 01, 02, 03?
Os termos “Proteinado 01”, “Proteinado 02”, “Proteico Energético 03”, entre outros, referem-se ao consumo do suplemento em relação ao peso vivo do animal. Por exemplo, o “01” significa que o animal vai consumir 0,1% do seu peso vivo em suplemento por dia. Assim, um bezerro de 200 quilos comendo um proteinado 01 consumirá 200 gramas de suplemento diariamente.
Para calcular facilmente, multiplique o número após a vírgula pelo peso do animal. Por exemplo, um animal de 200 quilos comendo 03 (0,3% do peso vivo) consumirá 600 gramas por dia.
Idealizando a suplementação perfeita
Para alcançar uma suplementação de sucesso, precisamos considerar alguns ingredientes essenciais:
1. Produto correto
Não adianta ter uma boa área de coxo, manejo adequado de pasto e animais de boa genética se o produto não estiver posicionado corretamente. Um exemplo disso é usar um suplemento proteinado em uma área que já possui pasto com alta concentração de proteína. Nesse caso, o resultado será baixo, e o investimento pode não valer a pena.
2. Quantidade correta da ração de gado de corte
É fundamental fornecer a quantidade correta de suplemento. Se um bezerro precisa de 200 gramas e você fornece apenas 100 gramas, ele terá uma deficiência e não ganhará peso adequadamente. À medida que o animal ganha peso, é necessário ajustar a quantidade de suplemento fornecida para garantir que ele esteja recebendo a quantidade correta.
3. Frequência correta da ração de gado de corte
Suplementos de alto consumo devem ser fornecidos diariamente, pois dificilmente é possível limitar o consumo desses produtos. Por exemplo, se o animal deve consumir 600 gramas de suplemento diariamente, não adianta colocar o dobro da quantidade no coxo e esperar que dure dois dias, pois os animais provavelmente consumirão tudo no mesmo dia.
4. Infraestrutura correta
A infraestrutura, especialmente a área de coxo, é um fator crucial na suplementação. Imagine um coxo com espaço limitado onde apenas alguns animais conseguem comer ao mesmo tempo. Os animais dominantes chegam primeiro e consomem o suplemento até ficarem satisfeitos, impedindo que outros se alimentem corretamente. Isso cria um desequilíbrio no ganho de peso dentro do lote, onde alguns animais ganham mais peso e outros ficam para trás, resultando em uma produtividade geral menor.
Evitando erros na suplementação
Garantir que todos os animais tenham acesso adequado ao suplemento é essencial para o sucesso do programa de nutrição. Se o coxo for pequeno demais ou o manejo inadequado, alguns animais não terão a chance de consumir o suplemento na quantidade necessária, o que compromete o desempenho do grupo.
Por isso, sempre leve em consideração a Lei do Mínimo e ajuste todos os fatores de produção para garantir que seus animais tenham o melhor desempenho possível. Entender os conceitos por trás da suplementação é o primeiro passo para alcançar resultados superiores na pecuária intensiva.
A importância do GMD ajustado
Um dos grandes benefícios de entender e ajustar corretamente o ganho médio diário (GMD) dos animais é garantir que eles alcancem o peso ideal no final do período de chuvas. No exemplo discutido, animais com um GMD tradicional chegariam ao final da estação com pesos variando entre 308 e 339 quilos. Em contrapartida, os animais seguindo o padrão de GMD do do meu treinamento de pecuária progressiva chegariam a um peso de 386 a 416 quilos.
Essa diferença é crucial. Animais que ganham menos peso durante a estação chuvosa têm menos valor de mercado, pois são considerados leves, com cerca de 10,5 arrobas, o que dificulta sua venda com valor agregado. Além disso, manter esses animais na propriedade durante a seca pode resultar em custos adicionais e menor lotação, além de possível perda de peso dependendo das condições de pastagem e suplementação.
Por outro lado, quando o GMD é ajustado à estratégia de pasto e lotação, os animais atingem o peso ideal ao final do período de chuvas, estando prontos para deixar a propriedade. Isso evita problemas durante a seca e maximiza os lucros, pois o produtor consegue vender os animais em condições ideais.
Aumentar o GMD, investir na suplementação correta, garantir uma infraestrutura adequada, e buscar conhecimento contínuo são as melhores escolhas para alcançar resultados superiores na pecuária. Agora que você sabe como aumentar o número de cabeças por hectare e como fazê-las ganhar mais peso, está pronto para produzir mais e tornar sua recria muito mais lucrativa.
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