A intensificação da pecuária é um processo complexo que requer planejamento cuidadoso e um entendimento detalhado das condições específicas da fazenda. O sucesso deste processo não depende apenas da introdução de mais animais ou do uso de mais adubos; é crucial também a otimização da pastagem. Um diagnóstico detalhado da área de pastagem e a implementação de práticas adequadas de manejo são fundamentais para aumentar a produtividade e garantir a sustentabilidade a longo prazo.
Veja como a reforma e a intensificação da pastagem, aliados a estratégias financeiras e técnicas específicas, podem transformar uma fazenda e maximizar seu potencial produtivo.
A metodologia de pecuária progressiva
A série de vídeos “Pecuária progressiva” revela o processo de construção de um projeto de intensificação, desde o diagnóstico inicial até o planejamento final. A metodologia é aplicada nas consultorias e treinamentos oferecidos, e visa a maximização do potencial produtivo das fazendas, considerando as particularidades de cada propriedade e região.
Embora haja um passo a passo detalhado, cada projeto é único, com decisões e caminhos distintos. A metodologia serve como um guia para alcançar o potencial máximo de produção, ajustando as estratégias conforme as condições específicas de cada propriedade.
É importante entender que uma solução eficaz para uma fazenda pode não ser aplicável a outra; o contexto e as condições locais são fundamentais para o sucesso da intensificação.
Resultados alcançados: um caso de sucesso de pastagem em Santa Catarina
Vamos começar pelo final, com os resultados que esperamos alcançar neste projeto de intensificação. A fazenda em questão possui apenas 55 hectares de área disponível para pastagem, mas a expectativa é recriar 500 garrotes por ano. Esses garrotes entram com cerca de 200 quilos no início do verão e saem com aproximadamente 400 quilos no final do verão, antes do inverno.
Esse projeto visa produzir mais de 60 arrobas por hectare, um número significativamente superior à média nacional de cerca de 5 arrobas por hectare. Ou seja, o resultado é mais de 12 vezes a média brasileira, o que não só demonstra um alto nível de produtividade, mas também um impacto financeiro considerável, com uma margem esperada de cerca de 8 mil reais por hectare.
Esse valor é muito acima da média usual, que varia entre 3 a 6 mil reais por hectare. No decorrer desta série, veremos como foi possível atingir essa margem tão elevada.
A importância de um bom diagnóstico
Todo projeto começa com um diagnóstico preciso. Entender a situação atual da propriedade é fundamental para traçar um plano eficaz de intensificação. No caso desta fazenda em Santa Catarina, o diagnóstico revelou que a propriedade já possuía um sistema de piquetes bem estabelecido, diferentemente de muitas fazendas tradicionais com pastos extensos e pouco manejados. A divisão por piquetes ajuda a otimizar a colheita do capim produzido, aumentando a eficiência sem necessariamente precisar incrementar a produção de capim.
Apesar dessa vantagem, havia problemas significativos. A topografia da área é bastante acidentada, com variações de relevo que influenciam diretamente o manejo e a eficiência de colheita. Além disso, apesar do sistema de piqueteamento, grande parte dos pastos estava degradada devido à falta de reposição de nutrientes, manejo inadequado e erosão.
Desafios e potencialidades da pastagem na região
A fazenda está localizada em uma região com alta precipitação anual, cerca de 2.100 milímetros, bem distribuídos ao longo do ano. Embora isso possa parecer ideal para a produção contínua de pasto, a realidade é que o principal desafio é o inverno rigoroso.
Durante os meses de abril a setembro, as baixas temperaturas impedem o crescimento adequado do capim, mesmo com chuvas abundantes. Por isso, a escolha do tipo de capim e as estratégias de manejo precisam considerar a resistência à geada e a capacidade de crescer em condições de frio.
Desvendando o projeto de intensificação dentro da pecuária progressiva
No terceiro episódio da nossa série “Desvendando a pecuária progressiva”, exploramos um projeto único em Santa Catarina que atingiu resultados excepcionais devido às características específicas da região. O sucesso deste projeto é um exemplo claro da importância de um diagnóstico preciso e de decisões personalizadas na intensificação de propriedades rurais.
Veja como esse projeto foi desenvolvido e o que torna seus resultados tão impressionantes.
O papel do diagnóstico nos resultados da pastagem
Como mencionamos anteriormente, o diagnóstico é a base de qualquer projeto de intensificação. No caso desta fazenda em Santa Catarina, o diagnóstico inicial identificou características fundamentais do terreno, como o relevo acidentado, que exige um tipo de capim estolonífero para ajudar no controle da erosão.
Um erro na escolha do capim, como um de tolceira que não cobre adequadamente o solo, poderia comprometer todo o projeto. Portanto, compreender os detalhes específicos da fazenda e da região foi crucial para orientar as escolhas estratégicas do projeto.
Além disso, o diagnóstico coletou uma série de informações vitais para a tomada de decisão, como a disponibilidade de maquinário, a logística regional para compra e venda de gado, e a capacidade da mão de obra local.
A coleta de dados incluiu detalhes sobre os sistemas de manejo existentes, a proximidade de frigoríficos, e a logística de insumos como milho e soja. Cada uma dessas informações influenciou as decisões sobre o melhor caminho para intensificação.
Estratégia de produção e mudança de foco
Originalmente, a fazenda operava com um sistema de cria, onde as vacas eram mantidas até o desmame dos bezerros, que eram então vendidos. No entanto, após uma análise detalhada dos possíveis cenários produtivos — que incluíam opções como cria e recria, ciclo completo, recria e engorda — o projeto direcionou a fazenda para um sistema de recria. A mudança foi motivada por uma avaliação de viabilidade econômica e pela possibilidade de intensificação com o tamanho de área disponível.
A decisão de mudar o foco da produção foi acompanhada pela simulação de vários cenários para identificar o sistema que traria o maior retorno financeiro para o produtor. Com base nesses dados, o produtor pôde escolher o caminho mais adequado de acordo com seus objetivos e a realidade da sua propriedade.
A evolução gradual da intensificação
O projeto de intensificação não acontece da noite para o dia. No caso desta fazenda, o plano prevê um período de sete anos para atingir o potencial máximo de 500 cabeças de gado. Este tempo é necessário devido à capacidade de geração de caixa da fazenda, que determina a possibilidade de melhorias e investimentos anuais. A evolução da intensificação se dá de forma orgânica, respeitando o fluxo de caixa e evitando decisões financeiras precipitadas.
Por exemplo, no primeiro ano do projeto, a fazenda iniciou com 120 garrotes, e o lucro obtido com a venda desses animais determinou o orçamento para o segundo ano. Esse planejamento financeiro cuidadoso garante que cada etapa da intensificação seja sustentável, permitindo melhorias contínuas e progressivas na fazenda.
Recuperação de pastagens e adubação estratégica
Uma das principais necessidades identificadas no diagnóstico foi a recuperação de áreas degradadas. A maior parte dos piquetes já estava delimitada e estruturada, mas ainda apresentava problemas de pastagem que precisavam ser resolvidos. Além disso, o projeto contou com uma particularidade que facilitou o processo: o solo da fazenda já tinha níveis satisfatórios de nutrientes essenciais como fósforo e potássio. Por isso, não foi necessário realizar uma correção de solo com calcário ou adubação corretiva.
A adubação foi feita de forma estratégica, utilizando principalmente ureia, uma fonte de nitrogênio acessível no mercado. Esse fator contribuiu significativamente para a intensificação de maneira eficiente e econômica, permitindo uma alta produtividade com baixos custos de insumos.
Planejamento anual e implementação de módulos
A intensificação foi planejada com etapas bem definidas para cada ano. No primeiro ano, a fazenda reorganizou sua estrutura, vendeu os animais do sistema de cria, comprou garrotes e iniciou a reforma das áreas degradadas. A partir do segundo ano, começou a intensificação com adubação específica, como a aplicação de 550 kg de ureia por hectare em três piquetes do Módulo 1.
Para otimizar o manejo e melhorar a eficiência, os piquetes foram reorganizados em módulos. Cada módulo consiste em vários piquetes que têm acesso a um corredor ou a uma praça de alimentação, onde os animais podem se suplementar e beber água antes de retornar ao pasto. Essa organização permitiu um melhor controle do pastejo e uma utilização mais eficiente das áreas disponíveis.
Resultados esperados com a pastagem e próximos passos
O projeto prevê uma evolução gradual do número de cabeças ao longo dos anos, até alcançar o máximo potencial de 500 animais. Essa evolução está diretamente ligada à capacidade da fazenda de gerar caixa suficiente para reinvestir na intensificação.
Cada ano, novas áreas são direcionadas para melhorias, como recuperação de pastagens, adubação e ajustes na infraestrutura, garantindo um crescimento sustentável e financeiramente responsável.
Organização e estrutura dos módulos
No início da implementação do projeto de intensificação, a fazenda foi reorganizada em módulos para otimizar o manejo. Cada módulo consiste em agrupamentos de piquetes que facilitam a administração e o tratamento dos animais.
Essa abordagem permite separar animais mais produtivos de menos produtivos, ajustando os cuidados conforme a necessidade de cada grupo. Com isso, os piquetes são divididos em módulos para que o manejo se torne mais eficiente e organizado.
Adaptações na pastagem ao longo dos anos
A intensificação da pecuária não acontece de forma instantânea. Em vez disso, o processo é gradual e ajustado ao longo dos anos com base nas condições financeiras da fazenda e na capacidade de investimento. No primeiro ano do projeto, a prioridade foi vender os animais do sistema de cria, contratar mão de obra para a formação dos pastos e iniciar a reforma.
Nos anos seguintes, a intensificação começou com a adubação dos piquetes e a introdução de novos lotes de animais. A adubação nitrogenada foi utilizada nos primeiros anos, mas com o aumento da taxa de lotação, a quantidade de adubo também aumentou.
A partir do quarto ano, a fazenda passou a incluir adubação fosfatada (MAP) para manter a qualidade do solo e compensar a extração de nutrientes devido ao aumento do número de animais.
Cálculo da taxa de lotação e rentabilidade
Para calcular a taxa de lotação, é essencial converter o peso dos animais em Unidades Animal (UA). Uma unidade animal é equivalente a 450 kg. A fórmula utilizada para determinar a quantidade de cabeças por hectare baseia-se na conversão de UA para o peso médio dos animais e a área disponível.
Por exemplo, ao se aumentar a taxa de lotação para 6,5 UA por hectare, calculou-se que seriam necessárias aproximadamente 9,75 cabeças de garrotes por hectare para manter a taxa de lotação desejada. Essa abordagem garante que o manejo da pastagem seja ajustado de forma a maximizar a produção sem comprometer a qualidade do solo.
Evolução e resultados esperados
O projeto de intensificação prevê um aumento progressivo no número de animais e na taxa de lotação ao longo de sete anos. O objetivo final é alcançar 500 animais na fazenda, com uma taxa de lotação de 7,3 UA por hectare. A rentabilidade esperada é de 26% ao ano, considerando apenas o operacional, e 8% quando o valor da terra é incluído. Esses indicadores destacam o potencial de lucro elevado que a intensificação pode proporcionar.
A intensificação de pecuária envolve muito mais do que simplesmente adicionar mais gado às pastagens existentes. O sucesso do projeto depende da integração de várias estratégias, incluindo a reforma adequada das pastagens, a gestão eficiente de adubar o pasto e a implementação de uma estrutura bem planejada. A reestruturação das pastagens em módulos, o ajuste das taxas de lotação e a manutenção dos nutrientes do solo são aspectos essenciais para alcançar os resultados desejados.
Com um planejamento cuidadoso e a execução precisa dessas estratégias, é possível não apenas aumentar a produção, mas também garantir a sustentabilidade econômica e ambiental da fazenda a longo prazo. Portanto, é fundamental adaptar as práticas de manejo às necessidades específicas de cada fazenda e acompanhar continuamente o progresso para assegurar uma intensificação bem-sucedida e eficiente.
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