Gado de corte: como viver de pecuária de corte?

Tempo de leitura: 6 minutos

Muitas pessoas se perguntam: é possível viver de pecuária de corte atualmente? Quanto é possível ganhar? Essa é uma dúvida frequente, especialmente no momento atual do ciclo pecuário. Estamos vivenciando uma fase de baixa, onde muitos fatores começam a conspirar contra o pecuarista: os preços dos insumos e da produção sobem, enquanto o valor da arroba cai. Um desafio do gado de corte.

É justamente nesta fase que os pecuaristas começam a se preocupar, a fazer cálculos e a se questionar se a atividade ainda vale a pena. Isso é bem diferente do cenário de alta, quando todos estão lucrando e tudo parece favorável. 

Para entender se é possível viver de pecuária e qual o potencial de lucro, é fundamental conhecer o ciclo pecuário. Por isso, de maneira rápida, aqui você verá como ele funciona.

O que é o ciclo pecuário?

O ciclo pecuário é uma sequência de ações e comportamentos no mercado físico da pecuária que afetam o preço da arroba do boi, do bezerro, da vaca, e assim por diante. É chamado de “ciclo” porque sempre tem um começo, meio e fim, mas o fim de um ciclo é o início do próximo. Desde que o preço da arroba começou a ser mapeado, esse ciclo se mostra claro e bem definido.

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Confira o ciclo pecuário. Foto: Acervo pessoal.

Vamos começar a explicar a partir da fase que estamos atualmente: o preço da arroba em baixa. Em qualquer ponto do ciclo que você comece, ele se completará e retornará ao início, mas agora estamos na fase de baixa.

A influência do abate de fêmeas

Na fase atual, o abate de fêmeas é um dos principais fatores que pressionam a queda do preço da arroba do boi gordo. Quando há um grande número de fêmeas sendo abatidas, o preço cai. Por outro lado, quando há poucas fêmeas indo para o abate, o preço tende a subir – é a lei da oferta e da demanda.

Sempre que vemos o preço da arroba caindo, geralmente é resultado de um excedente de abate de fêmeas. A partir desse ponto, o ciclo segue seu curso natural: com o excesso de abate de fêmeas, a produção de bezerros diminui. Menos fêmeas no rebanho significa menos bezerros sendo produzidos.

Com menos bezerros no mercado, o preço da reposição começa a subir. Esse movimento já pode ser observado em algumas regiões do Brasil. É um processo gradual – a produção de bezerros vai diminuindo, a oferta se reduz, e antes mesmo do preço aumentar, o mercado começa a sentir falta de bezerros. O momento de escassez precede o aumento de preços.

Gado de corte e o impacto no mercado de bezerros

Quando há menos bezerros no mercado, o preço naturalmente sobe. Isso leva os pecuaristas que têm vacas, novilhas e outras fêmeas a segurá-las para aumentar a produção de bezerros. Afinal, se o bezerro está caro, vale mais a pena produzi-lo internamente do que comprá-lo no mercado.

Diminui-se o abate de fêmeas e as fêmeas são retidas para produção, o que faz com que haja menos carne no mercado. E, como mencionei anteriormente, menos fêmeas indo para o abate resulta em menos oferta, elevando o preço da arroba, tanto da fêmea quanto do boi gordo.

Quando há mais bezerros no mercado, o preço cai novamente, e o criador se vê forçado a vender vacas para equilibrar suas finanças, gerando um novo aumento no abate de fêmeas e reiniciando o ciclo.

A Importância de entender o ciclo pecuário para o gado de corte

É crucial entender que o ciclo pecuário é uma realidade constante, independente de políticas, regiões ou circunstâncias específicas. Se você está passando por uma fase de prejuízo agora, prepare-se para o ciclo de alta. Muitos pecuaristas inexperientes investem durante a alta, acreditando que ela será eterna, e acabam vendendo seus investimentos em baixa porque as contas não fecham.

O segredo é inverter essa lógica: investir na baixa para colher na alta. Para quem deseja viver de pecuária, é fundamental compreender o ciclo e saber o momento certo de investir.

Definindo o sistema produtivo

Outro ponto importante é definir seu sistema produtivo: você vai optar pela cria, recria, engorda ou pelo ciclo completo? Essa escolha determina completamente seus resultados. Não se trata apenas de quanto você vai ganhar, mas também da velocidade com que o dinheiro entra na sua conta. O fluxo de caixa é vital para quem vive de pecuária. O que quebra uma fazenda ou uma empresa não é necessariamente a viabilidade do negócio, mas sim o fluxo de caixa.

Por exemplo, quem começa na cria pode ter um longo período sem retorno financeiro. Imagine comprar uma ovelha pronta para reprodução: leva cerca de 17 a 18 meses até o nascimento e desmame do bezerro, exigindo um investimento contínuo antes de qualquer retorno. Para quem está começando ou é pequeno, o ideal é trabalhar com recria, que permite um giro rápido e um retorno mais ágil.

Nível de intensificação da produção com o gado de corte

O terceiro ponto a analisar é o nível de intensificação do seu sistema. Sistemas mais intensivos produzem mais, mas também geram maiores custos. Eles exigem um investimento inicial que precisa ser sustentado até gerar o retorno desejado.

Intensificação pode significar aumentar a produção na mesma área, melhorar o ganho médio diário (GMD) dos animais, elevar a taxa de prenhez, entre outros. Cada medida que intensifica a produção requer investimento, e é preciso avaliar se você está preparado para fazer esse investimento e manter o sistema até que ele gere o retorno esperado.

A intensificação deve ser estratégica e bem planejada, considerando não apenas o aumento da produtividade, mas também a capacidade financeira para sustentar esse processo até o retorno do investimento.

O tamanho da propriedade importa no gado de corte?

Outro ponto essencial para quem deseja viver de pecuária de corte é o tamanho da propriedade. Muitas vezes, o tamanho da área de pasto é tão pequeno que, mesmo com alta produtividade e lucro, não é suficiente para manter o negócio. Essa análise é especialmente importante para aqueles que consideram a pecuária como uma atividade secundária ou pretendem migrar para ela como principal fonte de renda.

Para entender se o tamanho da propriedade é viável, é necessário fazer contas específicas para a realidade de cada produtor. Por exemplo, se o objetivo é obter uma margem de lucro de R$200 mil por ano, é preciso calcular quanto de faturamento é necessário para atingir esse lucro, considerando a margem de lucro percentual da atividade.

Como calcular a rentabilidade da pecuária

Vamos a um exemplo prático. Se a margem de lucro desejada é de R$200 mil por ano e a margem operacional da fazenda é de 30%, isso significa que o faturamento anual deve ser de aproximadamente R$666 mil. 

A partir desse número, podemos determinar a quantidade de arrobas necessárias para atingir esse faturamento e, consequentemente, ajustar a produção de acordo com o tipo de sistema produtivo escolhido — seja criação, recria ou engorda.

Em um cenário onde o preço da arroba é R$210, seriam necessárias 3.175 arrobas para alcançar o objetivo de lucro. O próximo passo é entender se a propriedade tem capacidade para sustentar esse nível de produção, considerando fatores como o número de cabeças por hectare e o nível de intensificação necessário.

Não existe uma resposta única para a pergunta “é possível viver de pecuária de corte?”. Cada produtor tem sua própria realidade, com diferentes níveis de intensificação, tamanho de propriedade, e sistemas produtivos. Contudo, uma regra é clara: quanto mais você intensifica a produção na mesma área, mais você dilui os custos fixos e aumenta as chances de lucratividade.

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