A recria é uma etapa crucial na criação de gado de corte, que se posiciona entre a cria e a engorda. O sucesso e a lucratividade dessa fase dependem de uma série de fatores que precisam ser bem gerenciados. Por isso, veja quando e como a recria de gado pode se tornar uma atividade lucrativa para os pecuaristas.
Entendendo os sistemas de criação de gado de corte
Antes de entrarmos nos números e avaliarmos quais desses sistemas podem gerar mais lucro para sua fazenda, é importante compreender as diferenças entre eles. Embora pareça simples, a delimitação entre cria, recria e engorda pode gerar confusão e afetar diretamente as decisões estratégicas do seu negócio.
O que é cria?
De forma simplificada, cria é o processo realizado por produtores que possuem vacas, novilhas e fêmeas em reprodução. O objetivo da cria é gerar bezerros e bezerras ao longo do ano ou em períodos específicos, dependendo do manejo adotado pela fazenda.
Algumas propriedades optam pela inseminação artificial seguida de monta natural com touros, enquanto outras utilizam apenas touros durante um período controlado (estação de monta), ou deixam os touros com as vacas durante todo o ano.
Durante a cria, o bezerro ou a bezerra, ao nascer, depende exclusivamente do leite materno para sua alimentação, pois ainda não possui capacidade de digerir forragem ou suplementos de maneira eficiente.
A vaca transforma a forragem e o suplemento que consome em leite, a principal fonte de nutrientes para o bezerro nos primeiros meses de vida. A partir do segundo ou terceiro mês, o bezerro começa a ingerir pequenas quantidades de forragem e suplementação, desenvolvendo seu rúmen para se tornar um animal independente.
Tradicionalmente, os bezerros são desmamados aos 7 ou 8 meses de idade, a menos que a fazenda adote técnicas para acelerar o desmame, como a desmama precoce.
O papel da recria na criação de gado de corte
Depois do desmame, entra o processo de recria. A recria é realizada por fazendas que compram bezerros ou bezerras desmamados e os levam até um estágio de pré-terminação. Durante esse período, o foco está em desenvolver a estrutura corporal do animal — incluindo ossatura, tamanho e musculatura.
Esse desenvolvimento requer dietas com níveis mais baixos de energia e maiores de proteína, visando garantir o crescimento adequado do animal. A recria termina quando o animal atinge um peso aproximado de 10 a 11 arrobas para fêmeas e 14 a 15 arrobas para machos, dependendo de fatores como genética, nutrição e metas de ganho de peso.
O processo de terminação na criação de gado de corte
A terminação, ou fase de engorda, vem logo após a recria. Nessa fase, o objetivo é aumentar o acabamento do animal, ou seja, a quantidade de gordura na carcaça. A suplementação, neste caso, precisa ser mais energética para promover o ganho de gordura rapidamente.
Normalmente, a terminação é um ciclo mais curto, durando de 90 a 150 dias, porque o ganho de peso é elevado devido à alta ingestão de energia.
Comparando os ciclos de produção na criação de gado de corte
Quando olhamos para os três sistemas de produção — cria, recria e terminação — percebemos que eles diferem não apenas no tempo, mas também nos custos envolvidos. A cria tem o ciclo mais longo, podendo levar até 17 meses para se completar, enquanto a recria pode durar de 1 a 2 anos em sistemas extensivos ou cerca de 7 a 8 meses em fazendas intensivas que adotam o método de pecuária progressiva. Já a terminação é o ciclo mais rápido, de apenas 90 a 150 dias.
Quanto aos custos, a engorda é geralmente a fase mais onerosa, seguida pela recria, enquanto a cria tende a exigir menos investimentos. Esta ordem também reflete o potencial de retorno financeiro, que depende da relação entre investimento, risco e lucro.
Escolhendo o sistema ideal de criação de gado de corte para sua fazenda
Confira as opções:
Fazendas de cria:
As fazendas de cria precisam manter touros e vacas, que são animais pesados e que permanecem na fazenda o ano todo. Se a sua fazenda possui mil vacas, e a taxa de prenhez e desmame é de aproximadamente 80%, você terá 800 bezerros ao final do ciclo. Se metade deles for macho, serão 400 machos e 400 fêmeas. Durante o período de seca, a maioria desses animais permanecerá na fazenda, o que exige um planejamento rigoroso.
Quando se adota uma estratégia de intensificação para aumentar a lotação, como passar de mil para 1.500 vacas ao longo de três anos, a lotação aumenta em 50%. Ou seja, se antes a média de lotação era de 1.5 UA (Unidade Animal) por hectare, ela passa para 2.2 UA por hectare. Com estratégias de silagem e sequestro de vacas, é possível intensificar essa lotação, produzindo um excedente de alimento na época das chuvas para ser utilizado durante a seca.
No entanto, se a fazenda tem uma área reduzida e não possui maquinário próprio, intensificar a cria pode ser inviável, pois é necessário garantir alimento para o período de seca. Em fazendas menores, onde não é possível alugar ou arrendar maquinário, uma cria intensiva pode não ser uma boa opção. Por outro lado, uma cria extensiva pode ser mais viável, pois requer menos investimento, apesar de oferecer um retorno financeiro menor.
Fazendas de recria:
A recria é mais flexível e pode ser implementada tanto em fazendas pequenas quanto em médias ou grandes, de forma intensiva ou extensiva. Durante a recria, é possível ajustar o período de compra e reposição para quando há alimento disponível, controlar a suplementação e a meta de ganho de peso diário para que os animais sejam vendidos até o final do período de chuvas ou antes do início da seca. Essa flexibilidade permite que a lotação seja ajustada de forma mais eficiente ao longo do ano, minimizando problemas com falta de pastagem.
Por exemplo, mesmo que a lotação média durante o período de chuvas seja de 5 UA por hectare, é possível reduzir essa lotação para 1 UA por hectare na seca, garantindo uma produção intensificada no período das chuvas sem comprometer a alimentação durante a seca. Assim, para fazendas menores que não conseguem produzir alimento suficiente para o período de seca, a recria de giro rápido pode ser uma opção mais viável.
Mas quando a recria pode ser mais lucrativa?
- Em períodos de baixo custo de insumos: Quando os preços dos insumos estão baixos, a recria se torna mais atraente devido aos custos reduzidos de alimentação e suplementação.
- Com alta eficiência de manejo: Propriedades que conseguem implementar um manejo eficiente, com alta taxa de crescimento e baixa mortalidade, têm maior potencial para lucratividade na recria.
- Quando os preços de venda são favoráveis: A recria pode ser lucrativa quando o preço dos animais de engorda está favorável, permitindo uma margem de lucro adequada ao vender os animais após a recria.
- Em propriedades com boa infraestrutura: Fazendas com boa infraestrutura e capacidade para fornecer alimentação e manejo adequados aos bezerros tendem a obter melhores resultados na recria.
Engorda e terminação: para fazendas com maior capacidade de investimento
Fazendas que desejam implementar a fase de engorda e terminação geralmente precisam ter uma estrutura maior ou uma capacidade de investimento considerável. A terminação intensiva, como o TIP (Terminação Intensiva a Pasto), exige um investimento alto, principalmente em ração e outros nutrientes suplementares.
Por exemplo, um boi na TIP pode consumir de 10 a 11 quilos de ração por dia, além do pasto. Em um confinamento, é necessário fornecer volume e concentração diariamente, o que aumenta o custo da operação. Com uma atividade tão intensa, é possível ter uma alta lotação de animais por hectare, mas o custo de manutenção desses animais também é alto, especialmente com a alimentação.
Além dos custos com ração, há também custos operacionais significativos. Se a fazenda possui 100 bois na TIP, por exemplo, serão necessários mil quilos de ração por dia. Esse volume demanda um trator para puxar a ração ou até mesmo uma pequena fábrica de ração dentro da fazenda, dependendo do tamanho da operação. Por isso, a terminação é ideal para fazendas com uma maior capacidade de investimento, mesmo que não sejam grandes em área.
Fazendas de ciclo completo: menos exposição ao mercado
Enquanto falamos de forma separada sobre cria, recria e engorda, existe também a opção de fazendas de ciclo completo, que realizam todas as etapas do processo — desde a criação do bezerro até a engorda do boi gordo. Este modelo permite maior controle sobre o processo produtivo e reduz a exposição às variações do mercado. Se o preço do bezerro está alto, a fazenda pode vender mais bezerros; se o preço do boi gordo está favorável, ela pode optar por recriar e terminar o gado.
No entanto, para implementar um ciclo completo, é necessário que a fazenda tenha um tamanho e estrutura consideráveis. Fazendas muito pequenas, como aquelas de 30 ou 50 hectares, não possuem escala suficiente para viabilizar essa operação. A produção em pequena escala não gera o volume necessário para fechar cargas de boi gordo para o frigorífico. Portanto, o ciclo completo é mais adequado para fazendas maiores, onde há espaço e recursos para sustentar todas as etapas do processo.
Qual o melhor sistema para alcançar alto lucro na pecuária de corte?
Após considerar as características dos três sistemas — cria, recria e engorda — e os ajustes necessários para cada um, não existe uma resposta única sobre qual é o melhor sistema para alcançar alto lucro na pecuária de corte. Tudo depende das condições específicas de cada fazenda, incluindo tamanho, infraestrutura, capital disponível, condições de mercado e capacidade de gestão.
A recria pode ser uma etapa lucrativa na criação de gado de corte, desde que o pecuarista entenda e gerencie adequadamente os diversos fatores que influenciam a sua rentabilidade. Adaptar-se às condições de mercado, investir em manejo eficiente e garantir uma boa nutrição são essenciais para maximizar os lucros nesta fase da produção. Cada propriedade deve avaliar suas condições específicas e ajustar sua abordagem para garantir que a recria contribua positivamente para o sucesso global da pecuária.
O mais importante, como enfatizado, é o raciocínio estratégico e a capacidade de ajustar o modelo de produção conforme as condições mudam. Para alcançar alto lucro é fundamental entender os princípios de intensificação e otimização dos recursos disponíveis, adaptando constantemente a operação para maximizar a rentabilidade por hectare.
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